Depoimento dado em Lisboa, em 1975,
para inclusão no livro “Memórias do Exílio – Brasil 1964-19??”, dirigido e coordenado por Pedro Celso Uchoa Cavalcanti e Jovelino Ramos, e publicado em 1976, em Lisboa, pela editora Arcádia

Nasci e fui criado no Rio de Janeiro por engano. Sou muito mais mineiro que carioca, embora só passasse algumas férias de verão na s Alterosas Montanhas: mais precisamente em Ouro Preto, onde meu tio Rodrigo, fundador do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, era uma espécie de vice-rei, sisudo, querido e odiado. Lá aprendi a beber cachaça, a roubar galinhas, a fazer serenatas. Catávamos escorpiões debaixo das pedras calcinadas do extinto arraial do Ouro Podre para vende-los a cinco mil reis a dúzia ao velho Tófulo, hoteleiro, taberneiro e agente do Instituto Butantã. Em Ouro Preto uma dama não identificada, moradora da zona, uma enfiada de casas que ficava entre a associação acadêmica e a estação da estrada de ferro, cobrou-me o imposto da libidinagem: um cancro mole que me deu um febrão e me obrigou a confessar os pecados a minha austeríssima tia Graciema. Felizmente o dr. Fleming já entregara as suas descobertas à humanidade e o episódio foi saneado sem maiores conseqüências com uma série de injeções. Não escapei contudo ao castigo de ser segregado do convívio da casa, de ter as roupas de cama fervidas para evitar o contágio e de cair sempre no desprezo de minha prima Clarinha, que amava em segredo, e que por ser dois anos mais velha raramente se dignava a dirigir-me a palavra.

A família de meu pai era de velha cepa mineira: vinha de Montes Claros, sertão da fronteira da Bahia, pelo lado do meu avô Honorato, e de Paracatu, antiga vila de faiscadores de ouro, pelo lado de minha avó Violeta. O velho Honorato foi deputado federal 30 anos e o seu eleitorado era garantido pelos trabucos da jagunçada da sua cunhada, dona Tiburtina, legendária cangaceira. Afrânio de Melo Franco, irmão da minha avó Violeta, passou vários lustros na Câmara, foi ministro várias vezes e continuou com brilho a carreira do pai senador e dos antepassados políticos. Pelos meus cálculos é provável que o primeiro parlamento brasileiro a reunir-se sem um membro da minha família foi o convocado em 1969, após a cassação do meu mandato.

Minha mãe é do Estado do Rio, descendente de um desbravador das matas do Rio Preto, plantador de café e pai de 103 filhos conhecidos, sendo dois legítimos. Esse patriarca estourou com um enfarte aos 55 anos de idade, ornado de um título de visconde e da Ordem da Rosa. Deixou 40000 arrobas de café na tulha, 600 escravos na senzala e dinheiro tão farto que só acabou três gerações mais tarde.

Mamãe nasceu em Paris, onde o pai era adido naval, e foi criada por duas tias ricas e solteironas, porque a minha avó morrera de parto. A infância solitária fez com que lesse mais que o normal o que, graças à sua memória fotográfica, lhe permite até hoje surpreender-me com citações de Lamartine, Chateaubriand e Thackeray, para não falar de Racine e Shakespeare. Educadas pelas freiras de Notre Dame de Sion, foi católica praticante a vida inteira mas, a partir do pontificado de João XXIII, tornou-se uma militante engajada a tempo integral. Ascendeu rapidamente na hierarquia da Ação Católica, foi a primeira mulher casada a integrar um conselho da Cúria Romana e acompanhou bem a abertura à esquerda de parte do catolicismo brasileiro.

Essa herança de deputados e barões inseriu-me naturalmente na alta burguesia brasileira, quer era a da antiga Corte, da Capital Federal, do Rio de Janeiro. Comecei a trabalhar antes dos 18 anos porque quis, por ânsia de sorver a vida, não por necessidade. Ao contrário, durante anos meu pai deu-me por mês uma quantia igual ao meu salário, porque dizia que no início de uma carreira profissional sempre se é exageradamente explorado pelo patrão. Entrei no jornalismo pela porta da frente, convidado pelo dono do Correio da Manhã , na época o maior jornal do Rio, que se divertira com a resposta que eu dera à pergunta de uma revista sobre o que os jovens queriam da vida – eu queria ser o primeiro em Paracatu. Fiz um estágio como repórter de polícia – quase vomitei quando vi o meu primeiro cadáver, um malandro esfaqueado em uma briga de morro – e outro na reportagem geral. Como falava bem inglês – estudara um ano nos Estados Unidos – e arranhava o francês, era encarregado de entrevistar visitantes ilustres. Graças a essas capacidades lingüísticas fui correspondente de guerra junto às tropas da ONU em Suez, após a retirada dos invasores franceses, ingleses e israelenses. Fui então promovido a capitão honorário, três meses após haver sido considerado inapto para o serviço militar pelo Exército brasileiro.

A minha formação intelectual foi feita muito mais no Correio da Manhã que na Faculdade de Direito, por onde passei distraído com a freqüência estritamente necessária para receber um canudo ao fim de cinco anos. Aprendi política internacional entrevistando o general Dayan em Gaza, o coronel Nasser no Cairo, Leopold Senghor em Dacar, Nukrumah em Acra e participando dos shows de De Gaulle e Kennedy ofereciam periodicamente à imprensa. O meu primeiro contato com uma revolução aconteceu em 1960, à porta do Hotel Riviera, em Havana, quando os jornalistas que acompanhavam Jânio Quadros conseguiram cercar Fidel à saída de uma visita protocolar. Ali mesmo, com um pé apoiado no pára-choque de um imenso Cadillacs que acabava de nacionalizar, fez-nos um discurso sobre o futuro de Cuba que durou da meia-noite às quatro da manhã e só terminou porque estávamos quase desfalecidos de cansaço.

Política brasileira fui aprendendo aos poucos, ao sabor das vagabundagens a que era profissionalmente obrigado. Conheci na carne a dureza da violência horizontal que existe na sociedade brasileira e que joga em lutas de morte frações da classe dominante na disputa do aparelho de Estado. Em setembro de 1957 fui mandado a Alagoas, fazer a reportagem sobre o impeachment de um governador, acusado de mandar assassinar um deputado da oposição. Os seus correligionários, em minoria na Assembléia Legislativa, decidiram ganhar no tiro o que perderiam no voto. Resultado: fui colhido por uma rajada de metralhadora e passei seis meses a soldar a coxa partida. Conheci também a frieza do roubo organizado contra os flagelados pelas secas, ao percorrer o nordeste em 1958. Fui aos sertões do Maranhão, onde a terra não tem dono até que cresçam as primeiras colheitas, estive em tabas de índios às margens do Tocantins, corri os chapadões dos Campos Gerais e a pampa do Rio Grande. Em 1960 andei o Brasil quase todo, agregado à comitiva de Jânio Quadros, e palmilhei Minas Gerais quase cidade por cidade, no rastro da campanha eleitoral de Magalhães Pinto. Enjoei de maionese para o resto da vida – não havia banquete de homenagem aos candidatos em que estivesse ausente a maldita pomada amarela mas gravei perfeitamente a cara da geografia da minha terra.

O conhecimento visual e vivencial do Brasil foi essencial para a evolução política que sofreria a partir do golpe de Estado militar de 1964. Enquadrou a visão deformada que normalmente teria, vivendo no eixo industrial Rio-São Paulo e sendo um membro mimado da sua classe dominante. Os discursos altissonantes dos políticos e dos industriais sobre as riquezas do Brasil não me podiam enganar. Eu vira o país: riquíssimo, sem dúvida, mas terra de poucos ricos e multidões de miseráveis. Não era ainda capaz de estabelecer a relação causa-efeito desses contrastes, de vê-los como uma conseqüência necessária do nosso capitalismo dependente e da dominação norte-americana – isso só conseguiria no exílio, quando tive finalmente tempo para estudar a sério -, mas revoltava-me instintivamente contra eles.

A 31 de março de 1964 tinha simpatias pelo golpe militar, simpatias determinadas pela minha posição de classe e precária educação política. Julgava moralisticamente o governo João Goulart. Não percebia que era derrubado por causa de suas poucas qualidades e não em conseqüência dos seus múltiplos defeitos. Por outro lado, a ditadura militar não fazia parte da memória histórica do Brasil:nunca ocorrera, o que me fazia descrer da sua possibilidade.

A tortura contra presos políticos encarregou-se de iniciar o meu aprendizado da realidade brasileira, vista pela banda podre. Em princípios de abril já começava a escrever contra a repressão aos sindicatos e à liberdade de expressão. Em maio encontrei uma primeira vítima da polícia política e lancei-me em uma longa campanha contra a tortura. Levou-me ela a penetrar em redes clandestinas, a entrar incógnito na Penitenciária do Recife, a recolher cerca de 100 depoimentos de torturados que ajuntei no livro Torturas e Torturados.

Pouco a pouco fui descobrindo a sistemática da tortura, vendo que não era uma aberração praticada por elementos incontrolados da polícia e do Exército mas sim uma necessidade do regime, ditada pela sua política econômica. Essa nova visão da repressão obrigou-me a estudar economia, a estudar a luta de classes, a ver a minha própria classe e a desligar-me dela. Repudiando a tortura, lutando contra a sua prática, tornei-me, pela primeira vez, brasileiro.

Em 1966 já se delineavam claramente os limites da minha atuação no Correio da Manhã e da atuação da imprensa no contexto geral do sistema político que os norte-americanos inspiravam à direita militar. O jornal, boicotado pelos grandes anunciantes e pelo ministro do Planejamento Roberto Campos, principal intérprete da política norte-americana no Brasil, estava à beira da falência. A imprensa começava a ser cerceada por agentes do Serviço Nacional de Informações e da polícia política. As eleições parlamentares, que se realizariam em novembro, pareceram-me uma oportunidade única de continuar a luta que travava na imprensa por outros meios e a outro nível. Candidatei-me, fui eleito, após vencer na justiça uma impugnação governamental.

Minha atuação parlamentar foi uma continuação da ação jornalística: denúncias da repressão, análises da política pró-americana do governo, criação de uma comissão de inquérito sobre a venda de imensas extensões de terra a estrangeiros. Éramos cerca de 30 deputados a fazer uma oposição real: todos jovens, todos eleitos pelas grandes cidades, todos pertencentes aos setores radicalizados da burguesia e da pequena burguesia.

Um de meus discursos, denunciando as brutalidades praticadas por militares na Universidade de Brasília, serviu de pretexto ao Ato Institucional nº 5. Acusado de ofender as Forças Armadas fui processado pela Lei de Segurança Nacional. O processo só poderia caminhar caso as minhas imunidades parlamentares fossem suspensas, o que dependia do consentimento da Câmara dos Deputados. Esse consentimento foi recusado, como era previsível, de vez que o Parlamento era e sempre havia de ser o campo privilegiado de ação política das classes dominantes. No dia seguinte o Congresso era fechado, as últimas garantias constitucionais dos brasileiros eram abolidas. Começava a ditadura sem máscara. Para mim iniciava-se um curto período de clandestinidade e um longo exílio.

Breve roteiro de 6 anos

Chego em território chileno no dia 31 de dezembro de 1968. A minha primeira noite no exílio permanente foi a do réveillon chileno.

Meu plano era ficar no Chile de quinze dias a um mês e ir para a França. Mas chegando
ao Chile verifiquei aquilo que todo brasileiro verifica quando pisa solo hispano-americano: que não entendia nada de América espanhola e que era imprescindível, para pensar o Brasil, conhecer os problemas da gente irmã, dominada pelo mesmo sistema imperialista. Apesar das diferenças pequenas que os separam do Brasil somos completamente cortados uns dos outros. A única vez que havia estado na América espanhola antes de 1969 foi quando estive em Cuba na caravana de Jânio Quadros e dois dias na Venezuela nessa mesma ocasião.

O Chile foi então uma abertura de horizontes e pensei, com a ajuda de um velho amigo, que o Chile não eliminava a possibilidade de Paris, mas Paris eliminava a possibilidade de América Latina. Se batesse na Europa dificilmente poderia voltar à América Latina, sobretudo para ficar por um longo período. Por isso fiquei um ano e meio no Chile, saindo em junho de 1970, portanto alguns meses antes da eleição de Allende.

Durante esse período fundamentalmente me concentrei sobre os problemas da América espanhola e dediquei-me a conhece-la fisicamente. Em julho de 1969 fui convidado a um Congresso na Finlândia. Aproveitei a volta e fui pingando.. parei na Venezuela, Colômbia, Equador, Peru até chegar ao Chile. Em outras ocasiões, conheci o México, Argentina e Bolívia.

Finalmente, em junho de 1970 vim para Paris com a família e lá fiquei até junho de 1974, quando vim para Portugal. Em Paris fiz doutoramento e viajei para Cuba duas vezes.

Primeiro fui a Cuba como membro do júri da Casa de Las Américas em janeiro de 1973 e depois, de dezembro de 73 a maio de 74, quando dei um curso na Universidade de Havana ao mesmo tempo que pesquisava sobre a vida cotidiana dos operários cubanos. Praticamente voltei de Havana para Portugal. Passei por Paris, fins de maio, vim a Portugal, arrumei um emprego e em setembro comecei a trabalhar.


O que é um exílio?

Evidentemente o exílio é uma ruptura com sua terra, no caso com o Brasil, com o tipo de trabalho lá desenvolvido, com uma realidade formadora de toda uma vida. Nesse aspecto o exílio é extremamente “cortante”. Mas é também uma integração. Integração com a luta do povo brasileiro, pela qual se paga um preço da ruptura, e integração no conjunto das lutas antiimperialistas – lutas que no meu caso foram também uma descoberta. Talvez o que se aprenda com maior profundidade no exílio é fazer a distinção, entre a dimensão do tempo histórico e a do tempo individual. Para isso tem que se exercer a paciência. Ele é mais ainda: é uma forma de ascetismo interno, pois só sobrevivem no exílio – produzindo e contribuindo – aqueles que conseguem se impor uma férrea disciplina de trabalho, um constante voltar-se para o país que deixaram. Mas voltar-se não no sentido de se implantar provisoriamente no país em que se está, mas sim, ao contrário, procurar inserir-se na realidade onde se trabalha com a idéia de que se está preparando algo adiante, uma contribuição que terá a sua continuação no Brasil. Então, na medida em que se consegue trabalhar fora – participando e se interessando pela luta do povo com o qual se entra em contato -, vai-se preparando e aprendendo o que deve ser feito quando se voltar para o Brasil. Tenho a impressão que essa missão de preparação permanente para ser aplicada – pois do contrário ela se torna bacharelesca – é a escola do exílio. O exílio é muito isso, como uma cadeia, um lugar onde se aprende. Mas é uma escola perigosa, porque a não inserção social caso conjugada com o aprendizado teórico e com a não aplicação do que se aprende tende a criar tribos de canibais. O não canibalismo foi uma das intenções que sempre tive durante esses anos. Não fechar-me num pequeno grupo de brasileiros, que pensam apenas o Brasil, que lêem apenas sobre o Brasil, que se relacionam com o meio ambiente apenas de uma forma parasitária, para trazer coisas, buscar coisas, recursos para isso ou aquilo... enfim, que vivem sugando da sociedade onde outros companheiros estão trabalhando e pensam o Brasil dentro de um vazio, ao mesmo tempo em que se afirmam através de digladiações e de ataques aos outros grupos de brasileiros que fazem a mesma coisa. Esse risco de descaminho é o da escola do exílio. O risco que faz nascer as tribos canibais foi o que tratei de evitar. É um risco que tem o seu preço também e há lugares onde se manifesta com mais vigor, como em Paris. Em Portugal se sente menos esse risco.

Na medida em que existem, num determinado local, grupos de exilados brasileiros, estruturados como “famílias políticas”, com um espírito de canibalismo ritual, o recusar-se a pertencer a uma determinada tribo implica no risco de se isolar, não só da vida da colônia como também do processo da esquerda brasileira em geral vivendo no exterior. A experiência da esquerda no exterior não é suficientemente importante para dizer que esse isolamento corresponderá obrigatoriamente a um isolamento do interior. Não, tenho a impressão que ao longo desses anos pude manter um contato permanente com o interior do Brasil bastante real... Mas do ponto de vista humano há alguma coisa que empobrece, porque limita o relacionamento pessoal. Você passa a escolher o meio, os seus conhecidos e amigos, entre um pequeno grupo que também não pertence às tribos canibais e que se torna cada vez mais rarefeito à medida em que o tempo passa, não só pela dispersão das pessoas, como também por um progressivo alheamento das pessoas daquilo que é mais importante para você, que é o processo brasileiro.


Da ruptura aos novos planos

Tentarei explicar um pouco o que era o meu trabalho no Brasil. Era um trabalho aberto no plano político que me fez passar de um liberalismo tradicional, típico da burguesia udenista brasileira, para um progressivo engajamento social, não através especificamente de leituras, mas sobretudo pelo impacto da realidade, pela necessidade de optar, dia a dia, face a determinados acontecimentos. Isso veio se processando desde 64.

Era um trabalho aberto porque fui jornalista e depois parlamentar em um Congresso que estava legal. Os contatos com o trabalho clandestino eram esporádicos e não institucionalizados. E eram sobretudo contatos de apoio e de troca de impressões. Era também um trabalho ativo e extremamente absorvente em que as horas eram poucas para se resolver tudo. Quando se sai do país, quando saí, passei para um novo tipo de trabalho. Primeiro o aprendizado. Depois um trabalho de reflexão e finalmente um intenso trabalho de discussão com os grupos clandestinos. Um trabalho de penetração, no sentido de entendimento, das propostas de cada um desses grupos. Ao mesmo tempo há um outro trabalho, que parecia ser mais frustrante, o de funcionar em sociedade onde não se tem participação nas decisões. Funcionar como jornalista, por exemplo, no Chile, onde funcionei relativamente pouco, na revista Mensaje , como comentarista de assuntos latino-americanos. Passei portanto de uma relação entre o que escrevia e uma prática social extremamente direta para uma relação de observador. O que escrevia em Mensaje tinha muito pouca influência na prática social do país onde estava.

Há rupturas de pensamento e de classe. No exílio elas se aguçam. Havia passado, desde 64, por um processo de desligamento de minha própria classe. Havia abandonado, ou pensava que havia abandonado, a classe dominante brasileira, para lutar pelos direitos do povo brasileiro à sua libertação. No exílio essa ruptura tornou-se muito mais ampla. Não apenas objetivamente, pelo fato de não estar mais em contato permanente com membros de minha classe, contato que eu tinha no Brasil – relações diárias, sociais, de trabalho -, mas sobretudo pelo fato de não ter mais o que dizer a essas pessoas quando por acaso apareciam e resolviam cometer um ato de benemerência e generosidade, procurando o velho conhecido com o qual haviam trabalhado ou estudado... Alguns iam ao Chile e procuravam manifestar o seu liberalismo – também a sua coragem – batendo à porta de minha casa. Pouco a pouco verifiquei que a ruptura de classe era muito mais profunda do que eu havia imaginado, porque já era uma ruptura de linguagem. Nós não mais falávamos a mesma linguagem. Não tínhamos nenhum ponto de interesse comum. Não tínhamos mais o “que tratar”...

Também o próprio processo chileno de luta de classes influenciou essa ruptura. Na época em que cheguei ao Chile já se notava um processo de confrontações bem violento e muito claro. Essa confrontação obrigava cada um a posicionar-se face a ela. Além disso o exilado é um desclassado, hoje em dia. Ele perde a sua condição de classe, deixa de ser o burguês, o intelectual, o estudante, o operário – há pouco operários no exílio. Passa a ser apenas um exilado, alguém que foi lançado para o lado de fora. E é acolhido por motivos liberais. Isso ou facilita a sua recuperação pela classe dominante ou a identificação com os oprimidos.

Há na própria condição do exílio um incentivo à introspecção e à reflexão. A condição de exilado aguça o desejo de saber. Porque, afinal, estávamos no Brasil numa luta muito intuitiva. Ao se pagar o preço dessa luta através do exílio é que se tem a oportunidade de saber, exatamente, porque se lutava.


De andarilho ao exílio político

Sou um andarilho profissional. Sempre, toda a vida, viajei. Desde os 18 anos de idade, trabalhando para o Correio da Manhã, ando com uma mala às costas. Portanto a minha capacidade de adaptação é provavelmente maior do que aquela de quem sempre viveu no Brasil e que de repente é expulso da vida política e obrigado a se adaptar a um lugar diferente.

Tendo passado 12 anos ater permanente contato com culturas diferentes, a andar de um lado a outro, primeiro no Egito, Suez, depois na Índia, França, Estados Unidos, fui criando uma capacidade de adaptação rápida. Sob esse ponto de vista o exílio não foi um impacto, nem um grande progresso. Se bem que, no caso particular do meu exílio, o país que mais contribuiu para mudar-me foi aquele onde menos fiquei. Foi Cuba. Em Cuba tive a impressão visual, e a vivência, do que é o socialismo e do que é possível fazer num país socialista. Cuba é Pernambuco com caráter. É isso: Pernambuco com vergonha na cara, com um governo decente, com um povo que não é explorado. E a potencialidade dessa transformação é tão evidente que realmente transforma a pessoa. Tudo aquilo que você pode ter imaginado lendo, lá você pode ver na prática, e, portanto, numa opção muito mais profunda.

Tenho impressão que aprendi duas vezes em minha vida. Primeiro comecei a aprender com o golpe militar de 64. Comecei a aprender realmente o que era o meu país, qual a cara verdadeira do Brasil. Cara dura, violenta, sanguinária.

Depois, comecei a aprender em Cuba: a aprender que há possibilidades de uma vida harmônica, sem as carências mais elementares de comida, saúde, educação e a ver que um povo subdesenvolvido pode criar uma vida assim.


Visão de fora; míope e ocular

O fundamental é desenvolver a sua visão de forma a ter maior clareza do Brasil. Muitas das coisas que eram confusas ou que eram misturadas, que eram vistas como se fossemos míopes sem os óculos, apenas em seus contornos, no exílio se tornaram claras. Coloquei os óculos durante o exílio e essa tal cara dura do Brasil tornou-se muito nítida, com as suas rugas, com as suas cicatrizes. A sociedade brasileira deixou de ser para mim uma negociação entre as classes sociais. A clarificação do domínio da burguesia brasileira sobre o aparelho de Estado e a implantação de um modelo que no meu tempo de Brasil – 64 a 68 – não me parecia ainda suficientemente claro, ainda não era um modelo exclusivamente para os que têm saúde, que têm educação, fez com que do exílio começasse a ver melhor. Portanto, há uma evolução entre o princípio do meu aprendizado no Brasil, em 64 – talvez pudesse levar um pouco mais atrás esse aprendizado e dizer que comecei a aprender o Brasil na grande seca de 1958, no nordeste -, e o que sou em 1975. É uma evolução no sentido de perceber com maior nitidez o que é realmente a sociedade brasileira, quais os seus conflitos, os seus antagonismos e quais as suas contradições irredutíveis e as que não o são.


Samba, futebol e mulher

Não há a menor dúvida que hoje me interesso menos por futebol do que antes, pois as oportunidades de ver bom futebol ficaram mais limitadas. Samba não. Continuo a gostar de samba igual. Continuo a vibrar com uma batucada, a gostar de dançar samba, tudo isso. Se bem que as oportunidades são evidentemente menores.

Quanto ao relacionamento com as mulheres, evidentemente mudou, mas não sei se haverá mudado pelo exílio ou por outra visão do papel da mulher. Hoje em dia não pretendo mais, como pretendia tal qual qualquer brasileiro de 18 ou 20 anos de idade, dormir com todas as mulheres do mundo, nem dormir com todas as que fossem aparecendo pela frente. Evidente que continuo a sentir atração pelo sexo oposto, mas apenas por algumas das mulheres com quem tenho um contato mais profundo e que me despertam para outro tipo de relacionamento que não é o da posse física e brutal, relacionamento que é o que aprendemos na sociedade brasileira. Terá sido o exílio isso? Se estivesse no Brasil teria evoluído da mesma forma? Acho que talvez sim.


Visões e preconceitos do brasileiro

Na medida em que tenho uma visão mais clara sobre o Brasil devo ter também uma visão do que é o brasileiro...mas é difícil conceitualizar essa visão. Evidentemente tenho muitos preconceitos a respeito de alguns tipos de brasileiros.

O brasileiro burguês: o que sofre de infantilismo gordo e que só pensa na sua lancha, na sua praia, no seu espaço lúdico conquistado por um apartamento maior ou por uma casa de campo e busca a descoberta do desconhecido através da maconha, ou do psicanalista, ou da missa negra. Esse me repugna.

Tenho uma visão preconceituosa de muitos estudantes que saíram ou foram obrigados a sair, que se canibalizaram e não produziram nada. Tenho também talvez uma visão idealizada do que seja o proletariado brasileiro. Pelo fato de ser membro espúrio da classe dominante brasileira, de viver num ambiente que afinal é burguês, tenho evidentemente a tendência a idealizar a classe operária, o que não corresponderá à realidade vivida. Mas, se tudo isso é uma outra visão de brasileiro, é difícil dizer. Odeio a irresponsabilidade de muitos setores da burguesia brasileira, inclusive dos que se chamam de revolucionários. Mas isso já tinha antes. Talvez tenha me tornado mais severo no julgamento, mais duro no afastamento quando me defronto com algumas dessas fraquezas. Denuncio. Inclusive para poder ser mais severo comigo mesmo também. Mas isso não é uma nova visão de mundo trazida pelo exílio. Esse foi o meu processo de transformação nesses anos de exílio...


Perspectivas do futuro no Brasil

Dada a estrutura de repressão estabelecida no Brasil, dada a dificuldade na circulação de idéias existente, um processo de luta revolucionária será muito lento. É o problema do tempo histórico. Por outro lado, o modelo de estrutura econômica que se montou no Brasil é um modelo que é autodestruídor e que já começa a entrar em crise. Dentro dessa crise será necessário ao governo alargar a sua base social para o resto da burguesia, que tem valores diferentes dos seus, e a abertura eleitoral, a abertura à Geisel nesse sentido é típica e é parecida com a abertura Caetano aqui em Portugal. Isso tem limitações muito grandes, mas ao mesmo tempo é fermentado por um processo de rebelião das massas, processo esse que não pode deixar de influir também no modelo político. Não apenas no modelo político proposto pelos “civis”, que no caso têm poucas possibilidades de exercerem ou formulares esse modelo, pelo menos a curto prazo, mas também no modelo político formulado pelos militares. Nesse ponto é importante estar em Portugal hoje em dia. Há, me parece, um progressivo desencantamento com a tecnocracia, com a industrialização nos moldes em que foi posta no Brasil, com a sociedade de consumo que na verdade não é para todos, que desperta aspirações em todos mas que apenas é para 8 ou 10% da população, e isso faz com que também entre os militares comecem a surgir dúvidas. Ora, um sistema autocrático como o brasileiro – baseado fundamentalmente no monopólio da violência – não pode permitir o florescimento de dúvidas entre os seus principais defensores, que são os militares. Conflitos entre os militares são, portanto, permanentes, impostos pela evolução do processo e quase que irresistíveis, no sentido de que não podem ser parados. Na medida em que esse conflito possa amadurecer e que a própria realidade social brasileira vai agindo sobre ele, poderá então haver um aceleramento da transformação social pelo desligamento da lealdade para com o sistema de grupos militares que buscam novas funções. País que não pode fazer a bomba atômica e transporta-la tem que ter ou um Exército repressor ou libertador, não há outra solução. Aqui em Portugal estão procurando fazer um Exército libertador. No Brasil o Exército é repressor e vai continuar a sê-lo por muito tempo. Mas tenderá a ter outra função libertadora, me parece.

Por menos que se tenha aprendido no exílio, pó mais fechado que seja o grupo de canibais no qual se possa ter vivido, uma pessoa sempre aprende muito... muito do que não se aprende no Brasil. Viu o mundo, viu outras realidades, outras lutas, leu, alguns com maior proveito, outros com menos, mas a maior parte dessas pessoas terá uma grande ansiedade em ser útil, em participar no processo brasileiro e em ter uma participação em nível superior.

Há um outro fenômeno do exílio que é um terrível parasitismo do exilado, um lumperanismo nascido do costume do “descolar” político ... Esses não terão inserção nem no Brasil me, e, lugar nenhum. Portanto, devem ser considerados como “vítimas do processo”. Tão vítimas do processo quanto o foram Marighela e Lamarca, mas, ao contrário deles, estão mortos para a revolução, para a vida do país e para si mesmos.

Os outros não. Terão uma contribuição a dar, enriquecendo a luta brasileira desde que tenham a humildade suficiente, quando voltarem, para perceberem que a luta desenvolveu-se sem eles e que o comando dessa luta provavelmente não lhes será oferecido numa bandeja de prata. Poderão até voltar nos braços do povo, mas esses braços serão de acolhida e não braços que os levantem como estandartes.

Marcio Moreira Alves

 


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